Rios Goianos: jornalismo ambiental com DNA goiano

Rio Araguaia Aruanã: o assassinato do Bandeirante!

 

 

Córrego Bandeirante Aruanã Goiás j Fotos João Faria 10 07 2017

Córrego Bandeirante, importante artéria que abastecia  o Araguaia, com suas águas cristalinas!

 

Nesta temporada de férias em Aruanã, às margens do Rio Araguaia, um fator chamou a atenção da maioria das pessoas que esteve em suas praias. A pouca água em seu leito. Este foi, sem dúvida nenhuma, o assunto que ‘bombou’ nas praias e bares de Aruanã! O Araguaia, na região de Aruanã, é sempre conhecido por sua beleza e ostentação e grandes barcos-hotéis e luxuosas lanchas se revezavam nas retinas e nos sonhos dos turistas.
Mas a falta de navegabilidade no rio destruiu esse acontecimento nestas férias. Na realidade foi quase um luto, pois, quem veio para o Araguaia com a intenção de curtir e se divertir com esses brinquedos caros e seletos, se viu sem opção. Presenciamos e participamos de protestos realizados por pessoas que compõem o grupo SOS Araguaia. Até o projeto Estrelas do Araguaia, criado por Sergei Cruvinel que, há mais de 14 anos, leva música, diversão e conscientização ambiental aos acampamentos, quase teve sua logística comprometida se não fosse a habilidade de seus organizadores em criar uma alternativa de locomoção.
A falta de água no Araguaia não é um fator natural e sim provocada pela mão do homem! E um desses homens que estão provocando a seca no leito do rio se chama Luiz Quintal. É um empresário da área de comunicação (vejam que ironia) e surfista político. Só esse ‘muy’ nobre senhor é responsável por um desvio licenciado pela ANA (isso é o maior agravante), da ordem de mais de 11 milhões de metros cúbicos por hora são retirados do Araguaia. Essa água dá para abastecer uma cidade como Goiânia por um mês. Porém, o empresário não é o único mal que assola o rio, dentro da cidade de Aruanã. Conferimos in loco outra face da covardia humana – o assassinato cruel e insano do Córrego Bandeirante, tributário do Araguaia. O lastimável acontecimento foi testemunhado pelo senhor Onias Dias Ferreira, primo de dona Gercina Borges Teixeira, segundo ele. Onias é construtor de pontes, que, em meados de 1947, chegou a Aruanã. Suas experiências e aventuras às margens do Bandeirante são deliciosas e emocionantes! Vamos conhecê-las nesta entrevista exclusiva.

 

          Testemunho vivo e emocionante!

 

Córrego Bandeirante Aruanã Goiás Senhor Onias Dias Ferreira Fotos João Faria 10 07 2017                                        O nosso transporte era o burro ou cavalo!

 

Rios Goianos: Em 1947, o senhor veio de Rio Verde das Abóboras à região de Aruanã para trabalhar na construção da ponte sobre o Rio Garça. Mas, só em 1980, comprou essa casa. Como era o Córrego Bandeirante?
Onias Dias Ferreira: O Córrego Bandeirante era repleto de peixes grandes e sua água corria o tempo todo. Aqui não dava para andar. Só se vinha a cavalo ou em burro – não havia ônibus, não tenha nada! E essa rodovia também não existia. O asfalto só chegou aqui depois de 1980. Quem o trouxe foi Ary Valadão (ex-governador de Goiás). O asfalto foi feito para escoar a colheita das lavouras que existiam.

RG: Na época de sua chegada aqui existiam muitos índios?
ODF: Havia um punhado de Índios, mas em número pequeno. Esse “bicho” anda demais. Na mesma hora eles estão aqui e, depois, já se afastaram para bem longe. Eu calculo que havia cerca de 2 mil índios. Eles acabaram adoecendo também; muitos morreram por causa da gripe asiática. Isso aconteceu, mais ou menos, de 1947 a 1951. Naquela época, Getúlio Vargas salvou muitos índios, os levando de avião para o Rio de Janeiro. Tuberculosos, receberam tratamento.

RG: De que forma o senhor se deslocava em Aruanã?
ODF: Nós montávamos em um cavalo ou burro e íamos para Goiás (Cidade de Goiás) comprar o equivalente a uma capanga de sal e aí salgávamos o peixe para comer. Aqui tinha muito peixe. A gente pescava no quintal de casa, próximo onde está o tanque de lavar as panelas. O falecido cacique Jacinto matou um pirosca (pirarucu) bem aí, com um facão. O peixe tinha subido do Rio Araguaia e passava aqui no “córgo”.

 

Córrego Bandeirante Aruanã Goiás c Fotos João Faria 10 07 2017

Neste ponto o cacique Jacinto pegou um pirosca com mais de 2 metros com golpes                     de facão!

             Garantia de peixinho na panela!

RG: Quando havia água no Córrego Bandeirante, que tipo de espécie o senhor pescava?
ODF: Os peixes que a gente pegava aqui era o seguinte: pintado dava muito, o pirosca de 2 metros de comprimento era papa-terra, traíra, piau e outros. Havia muitas qualidades de peixe. O Córrego Bandeirante nos garantia o almoço e jantar. Nós “usava” também os peixes do Araguaia, alguns matrinxãs, caranhas e jaú. Este eu pegava bem na barra do Bandeirante. Era jaú “com mais de metro”. Nós “vivia” era disso aí. Eu ia a Goiás buscar o sal, montado em égua, cavalo ou burro. Moro aqui há muitos anos. Quase todos os meus filhos nasceram aqui. A gente se acostumou com a região.

RG: Em sua opinião, porque que o Córrego Bandeirante está seco hoje?
ODF: A prefeitura começou a abrir esgoto. Aí o rio vai secando né? E vai secar mais ainda. Mas, do outro lado da rua, “fica” tudo alagado. A água fica pela cintura e desce tudo por aqui percorrendo esses buracos até o Araguaia. A água pula a rua! Ai alaga tudo né? Quando alaga, a gente não consegue descer a rua. Quando aparece enchente, a água invade a área do barraco.

 

                     O Bandeirante está morto!

 

Córrego Bandeirante Aruanã Goiás i Fotos João Faria 10 07 2017

Desmatamento da mata ciliar, resulta em enchentes sem controles, assoreamento do leito do córrego e sua morte!

 

RG: O senhor sabe de alguma história com animais selvagens, boa ou ruim passada aqui as margens do Bandeirante?
ODF: Há muita história. Eu tenho uma casinha onde mora minha senhora. De manhã bem cedo, você precisa ver o tanto de macaco que ainda tem ali, além de lobo-guará, arara e tamanduá bandeira. Até 1998, onças vinham urrar no quintal. Os cachorros ficavam “doidinhos” na carreira. Os animais chegavam a estalar as patas no chão de medo da onça. “A Pintadona”, ficava à espreita num toco, nas primeiras horas da manhã, sossegada. Mas, quando a prefeitura começou a limpar o mato, as onças foram sumindo. Além disso, neste pé de cajá-manga, por volta de sete e meia da noite, muitas pacas se concentravam por ali. Elas vinham comer os frutos que caíam no chão. Quando a gente tinha vontade de comer uma paca, era só atirar de dentro de casa e pronto! Era “bão” demais da conta! Mas agora tudo está diferente.

 

                 Insegurança as margens  do Araguaia!

 

RG: Por quê?
ODF: A região está muito perigosa. Muita gente de fora vem pra cá e comete assaltos, inclusive a banco. O sujeito chega e ataca o carro forte, põe fogo e pega o dinheiro. Isso tudo já aconteceu aqui. Ainda assim, eu continuo dormindo de porta aberta. Mas, sem o povo de fora, Aruanã era bem mais tranquila.

RG: O senhor foi feliz nesta casa?
ODF: Se eu fui feliz? Uai, parece que eu fui! Estou aqui até hoje e criei os meus filhos. Eu gosto daqui, o povo gosta de mim eu gosto deles. Eu estimo os índios. Eles aparecem e falam: “Oi, seu Dico, como vai”. Os índios se aproximam e tomam um cafezinho comigo. Estas pessoas são um pouco diferentes da gente; às vezes, são sistemáticos. Quer ver eles satisfeitos? Então, sirva um cafezinho ou mesmo uma dose de pinga. Ofereça também fumo para fazerem um cigarro com um papel destes aqui (guardanapos). Eles ficam muito satisfeitos e agradecidos!

11/07/2017.

 

Texto e fotos: João Faria/ONG Rios Goianos.

Revisão e edição: Carlos Pacheco
Texto Final – Serviços Jornalísticos
Contato: (62) 99982-5056.

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