Rios Goianos: jornalismo ambiental com DNA goiano

A Pata do macaco guariba 2019!

                 A Pata do macaco!

 

Neste feriado de carnaval resolvemos ir a uma chácara de um parente localizada no município de Abadia de Goiás, saída sudoeste de Goiânia. Um local sensacional. Muito verde e ar puro. Uma chácara de cinema, ideal para descansar e repor as energias. Porém, como ocorreu na pescaria de carnaval passada, houve momentos bons e um muito ruim. A pata do macaco guariba! E é este momento extremamente ruim que vou lhes contar a partir de agora. Aprendi uma lição muito útil nesse acontecimento que vivi, apesar de ser uma lição já conhecida por quase todos nós. Tenho certeza que a maioria de vocês pensa como eu pensava, ou melhor, não dão muita bola para essa lição, que é a seguinte: As aparências enganam.

E eu digo isso porque essa cachorrinha preta, linda, dócil, mansa, ótima na vigia da casa e meiga, não se enganem, é uma caçadora destemida e mortal! Mas, antes, quero fazer um pequeno comentário sobre a realidade de outro personagem que compõem essa história O macaco Guariba! Este primata habita quase todo o território brasileiro. Mas é no cerrado que sua presença é significativa. O Guariba é um macaco de porte médio, de constituição física e muscular robusta – esse é mais um motivo para o meu espanto, perante a habilidade dessa cachorrinha preta, pois o macaco é forte o suficiente para dominar e matar um animal como ela. O desmatamento continua sendo o maior responsável por histórias tristes como essa. Com a derrubada das matas e árvores, estas espécies são obrigadas a procurar refúgio e alimento para sua prole. Os especialistas chamam esses caminhos sobre as árvores de corredores ecológicos de migração. Existem também os corredores terrestres que são utilizados pelos animais que habitam o solo. Com o fim desses corredores animais selvagens das árvores e terra, são obrigados a se deslocar para locais que ainda tenham um pouquinho de área verde preservada. E onde essas áreas estão? Nas fazendas, chácaras e algumas áreas urbanas, preservadas a ferro e fogo por algumas pessoas que ainda se importam! Mas isso infelizmente não consegue evitar que batalhas como essa ocorram entre esses personagens.

A título de registro o macaco Guariba compõe a lista de animais da fauna brasileira sob risco crítico de extinção! ……………. É manhã. Após o café, estou ainda tentando acordar a preguiça que reina incólume, soberana e inabalável. Meu filho chega me chamando esbaforido e diz: “Pai, pegue sua câmera rápido”. A palavra “rapidez” não me pertence! Mas lá fui eu… Meu filho dizia: “Acho que é um filhotinho de uma coruja pequena. Tem ‘chifrinhos’ na cabeça. É linda. Anda logo!”. O pequeno animal estava logo ali na mata à frente. Por incrível que pareça, consegui chegar ao local onde se encontrava a ave, uma sofrível caminhada de 3 ou 5 minutos… uma eternidade! Agora, devidamente acordado, e pronto para agir, observei a ave – na realidade era um lindo filhotinho de urutau, pássaro místico e extremamente arisco.

Ave mística

Urutau, pássaro místico que, carrega a fama de ser ave que traz azar!

              Olho amarelo que parece fogo!

Abaixei a cabeça para posicionar o monopé da câmera. Quando voltei a olhar na direção da ave, cadê ela? Simplesmente desapareceu (lembra um pássaro místico!). Desapontei meu filho, lógico! Um singelo garoto de apenas 22 anos. Para chegar à localidade tivemos de atravessar o Córrego Dourados que divide os municípios de Abadia e Goiânia. Em outras palavras, invadimos território alheio. Mas já que estávamos ali resolvemos explorar a região na esperança de localizarmos novamente o filhote do urutau. Na medida em que andávamos íamos chegando perto da casa de uma chácara. Lá chegando conhecemos o caseiro. Um senhor tocantinense de sorriso fácil e largo, nos recebeu com muita educação e ofereceu um cafezinho coado na hora por dona Ana, sua esposa e companheira de labuta. Contamos o motivo da “invasão” em sua propriedade e ele deu uma gostosa risada. A prosa começou! O nome do meu novo amigo é senhor Antônio, mas gosta de ser chamado de Toninho. Formalidades cumpridas, ele começou a nos contar sobre os animais que habitam a região das chácaras. E voz pausada, calma e mansa ia mencionando os bichos e suas características. “Aqui seu moço, tem ‘coité’ demais (diz, se referindo ao urutau). Esse bicho tem um olhar que quase tira a nossa alma – seu olho é de um marelo que parece fogo. Quando ele pia, dá até arrepio na espinha! Dizem que é ave de mau agouro. Num gosto de cruzar com ele não”. E com calma e paciência de avô, que conta estórias para os netos, continuou a falar dos bichos –tamanduá bandeira, raposa, capivara, meleta, gato do mato, onça jaguatirica… “Ela (a onça) é pequena e parece um gato. A gente vê também coelho selvagem, tatu, cotia, gambá, quati, cobra jaracuçu, que fica na beira do corgo, tucano, arara amarela e maritaca.

 

                      Uma caçadora mortal!

Há inhuma – ela tem um piado alto e só pousa no topo das árvores grandes”. Neste momento, chegou nossa protagonista, a cachorrinha preta, carinhosamente chamada de “Pretinha” pelo seu dono. É quando o senhor Toninho começa a nos contar sobre a mais recente e mortal façanha da Pretinha: — Aqui há também muito macaco, o macaco prego e guariba. Tem aquele macaquinho (mico sagui) folgado que só. Eles vêm agasaiá (comer) aqui na varanda. A Ana adora dar frutas pra eles. Mas tem uma coisa: a Pretinha não gosta dos guaribas de jeito nenhum. Ela fica toda urriçada e avança pra valer neles. A sorte é que, na maioria das vezes, os guaribas só ficam em cima desses bambus aí da frente. — Mas ontem aconteceu uma coisa esquisita sô! Era mais ou menos umas 10 da manhã.

Caçadora hábil e mortal!

Pretinha, sua meiguice, docilidade e tamanho, escondem uma caçadora mortal!

Eu tava aqui fazendo um cigarrinho e na espreita de agasaiá o armoço. A Ana foi no quintar e pegou uma galinha gorda pra arrumá e me disse: ‘Uai, Tonin, tem muitos guaribas hoje; eles tão do lado de lá do corgo. Eu num lembrava de ver tantos juntos assim não. Tá pra mais de uns dez sô!’. Eu falei com ela, eles tão querendo é agasaiá mió. Sabe, seu moço, os guaribas são danados quando, os mios (milhos) estão com as bonecas (espigas) começando a amadurecer. Ficam doidinhos e se a gente deixa, eles agasaiam uma por uma, eitá bicho danado! Oia, não passou dez minutin e a Pretinha começou com uma zueira (latir); parecia que ela tava com um trem ruim na cacunda. Daqui de dentro eu ralhei com ela, mas que nada… Ela continuava! Me aprumei (levantei) e fui até à porta. Ela deu um carreirão lá pro lado dos bambus, parecia que os bambus tavam com tremedeira.

 

Os bambus foram testemunhas oculares de uma luta brutal entre dois inocentes animais até a morte! Foto João Faria/ONG Rios Goianos.

Os bambus foram testemunhas oculares de uma luta brutal entre dois inocentes animais até a morte!

                            E começou o furdúncio!

Os guaribas tinham passado pro lado de cá e tava uma fuzarca só. Fiquei mei cismado. Será que esses bichos vão atacá? — Mar fechei a boca e num é que desceu um dos grandes pro chão, moço! A Pretinha ficou urriçada de novo. Matutei (pensei) que ela ia corrê de vortá pra dentro. Que nada sô! Ela foi pra cima desse guariba e começou o furdúncio. Gritei pra Ana: Muié, corre e cata minha felobé. O bicho vai matá a pretinha! A Ana foi que nem um rai e troxe a espingarda. Mas não foi preciso nem engatinhá (engatilhar) a bicha. A Pretinha tava dano uma coça no guariba. Ela ficava correndo em vorta dele e dando mordida. O macaco dava cada grito que chegava a me arrepiá. Teve uma hora que a cachorrinha mordeu no braço dele. Aí eu matutei: Tá morta! Que nada, ele tentou agarrá ela pela cintura. Foi aí que a coisa não prestô pra ele. A cadela mordeu bem ‘naquela’ dele. Foi tiro e queda! — Num levou uns dez minutos essa peleja. Eu mar pude acredita, vendo a Pretinha trazê um macaco grande pra cá.

O bicho tava mortinho e bem machucado! E a cachorra parecia muito feliz, banano o rabinho e pulano neu! Com a briga da Pretinha e o guariba, o resto dos macacos sumiu, fiquei matutando! Como é que uma cachorrinha desse tamanico consegue matá um bicho do tamanho desse guariba? Essa vira lata foi o meu sobrinho que me deu. Ela tava largada na rua. Ele viu e ficô com dó. Aí troxe ela pra nóis. Eu já gostava por demais dela agora, nem se fala, essa Pretinha é caçadora das boas! — Aí com a morte do macaco, agente dexô a galinha de banda e sapecamo o bicho. A Ana fez o macaco bem cuzidin pra mode de nóis agasaiá. Ela num gosta muito não, mas eu sim! A carne tem um gosto diferente dos outros bicho. Eu acho bão demais, sô! A pata do macaco tá bem ali debaxo da arve. Ocê que vê? É meus amigos tem um ditado que diz: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Antes eu não tivesse ido ver a pata do macaco. Até aquele momento, tudo parecia inusitado e até natural para mim, mas, ao ver aquela pata, fez com que a dura e terrível realidade me desse um tapa no rosto! O que havia ocorrido naquele lugar era nada menos que uma sangrenta, cruel, violenta e brutal batalha entre dois seres vivos. Tudo porque um invadiu o espaço do outro! Em outras palavras, graças à irresponsabilidade humana em desmatar sem o menor critério, está ocorrendo mortes violentissimas de animais indefesos como esse guariba. Se houvesse apenas um pouco de bom senso dos proprietários de terras, em termos de conservação das áreas dos corredores de animais silvestres, esse tipo de fato não aconteceria. Quando vi a pata, meu sangue gelou.

 

 

                             Imagens da barbárie!
Uma visão aterradora, a semelhança com uma mão humana é inquestionável!

Uma visão aterradora, a semelhança com uma mão humana é inquestionável!

 

N e s t e â n g ulo s e n o t a u m c a r o ç o p r ó xim o a o p ole g a r, é a í q u e c o m e ç a a s u r gir a s diferenças!

Neste ângulo se nota um caroço próximo ao polegar, é ai que começam a surgir as diferenças!

 

O corte do punho foi a faca, ainda se vê pêlos no final da pele!

O corte do punho foi a faca, ainda se vê pêlos no final da pele!

 

O cinza da terra contrasta e cria um quadro com fundo grotesco e horripilante para a pata do macaco!

O cinza da terra contrasta e cria um quadro com fundo grotesco e horripilante para a pata
do macaco!

Parecia demais uma mão de criança; seus dedos longos; suas unhas finas e transparentes; o formato dos dedos – toda a anatomia lembra e muito uma mão infantil. Novamente me veio aquela sensação de que tudo aquilo não era verdadeiro. Era um cenário brutal demais para ter acontecido naquele lugar: a docilidade e fragilidade da Pretinha, o senhor Toninho e dona Ana, dois amores de pessoas, foram protagonistas de uma matança cruel, covarde. E, ainda, comeram o guariba só porque, segundo o senhor Toninho, os macacos queriam agasaiá os mio. São acontecimentos como este que me fazem parar e refletir: O planeta terra possui mais de 7 bilhões de pessoas, o século 21 é a era da tecnologia da informação e robótica, o homem domina o espaço a terra o mar, a comunicação já rompeu todas as fronteiras conhecidas, a medicina evoluiu em matéria de ciência e tecnologia, além da qualificação de seus profissionais. E, por fim, temos a internet, segundo especialistas, a maior ferramenta já criada pelo homem. E, mesmo após tudo isso, as cenas descritas acima são terrivelmente atuais, ainda tenho a sensação de que vivemos em um mundo hiper selvagem e grotesco. Somos capazes de realizar feitos espetaculares e incríveis, mas não somos capazes de viver em paz com a mãe natureza! Seria isso uma maldição que a raça humana carrega em suas entranhas ou é porque somos tão pequenos e hipócritas que não suportamos as dádivas que recebemos da natureza? É surreal adquirir terras e, mais terras e, não se reservar um espaço minúsculo para a vida selvagem viver em paz e com segurança! Não estou culpando nossos humildes protagonistas, pois eles também são vítimas indefesas do comportamento monstruoso de proprietários de terras espalhados por aí afora. É claro que existem pessoas que lutam bravamente em defesa da natureza e da vida. Contudo, o que se vê são grandes latifundiários desmatando e desviando curso de rios, destruindo mata ciliares, matando nascentes de rios, enfim, tudo isso acontece e a punição sempre chega atrasada, isto é quando chega! A pata do macaco é apenas mais uma história com final trágico. Pode até não ser uma história que mereça destaque na grande imprensa nacional, mas serve de lição para tentarmos cuidar melhor de nossas chácaras, fazendas e áreas públicas. Para que isso não nos transformem em espécie extinta!

Texto e fotos: João Faria.

Revisão e Edição: Carlos Pacheco.

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