Rios Goianos: jornalismo ambiental com DNA goiano

Rio Paranã: e o cemitério Calunga!

Calungas exigem respeito aos seus mortos!

                              
Cemitério Calunga 4 FT JF 27 11 10 123Cruzes e túmulos á frente. Ao fundo, galinhas e a casa da família Moreira. “Os enterros acontecem em qualquer hora, quando estamos almoçando a nossa vista da cozinha é, ver um irmão nosso sendo sepultado”! 

O rio Paranã abriga uma comunidade Calunga que é conhecida também como povoado do Paranã e localiza-se no município de Monte Alegre de Goiás, a 450 quilômetros de Goiânia. Turistas, antropólogos e historiadores consideram Monte Alegre um dos mais belos lugares do Estado. Sua economia é sustentada pela agricultura e pecuária. Boa parte da vegetação do cerrado está intacta ali, abrigando um cenário imponente, cujo protagonista é o Rio Paranã. Mas nem tudo são poesia e beleza. Os calungas, que integram 90% da população local, vivem numa situação de pobreza e são obrigados a conviver com um vizinho macabro: o cemitério que se confunde com o povoado.

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O rio Paranã está há mais ou menos 200 metros de distância desses túmulos, no final desta mata!

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Cemitério Calunga FT JF 27 11 10 139      Sem muro, cerca, portão ou uma simples capela para velar seus mortos. Este é o cemitério calunga, que constrange qualquer pessoa!

Cemitério Calunga 2 FT JF 27 11 10 133O abandono é imoral mas, mesmo assim não incomoda e nem sensibiliza a gestão pública de Monte Alegre de Goiás!

Cemitério de Monte Alegre de Goiás FT JF 27 11 10 003 - Cópia Este é o cemitério de Monte Alegre de Goiás, a diferença é gritante. Para o dos calungas, uma dor aguda no fundo da alma!

O Povoado de Paranã possui, em média, 40 casas, onde moram 250 pessoas. No local, a fuga da pobreza encontra refúgio no consumo de bebidas alcoólicas, empreendido por homens, mulheres e até algumas crianças. Das 40 casas, seis são bares, ou seja, mais de 10% das habitações. Outra constatação que mancha ainda mais o belo Vale do Paranã é a prostituição infantil. Meninas a partir dos 10 anos se prostituem em troca de dinheiro para comprar comida, roupas, brinquedos, enfim, alimentam o sonho de um dia ter uma vida mais justa e feliz. O índice de gravidez precoce é muito elevado e este problema também é crônico na vizinha Monte Alegre de Goiás .

Povoado de Paranã 2 FT JF 27 11 10 099 - Cópia Prostituição Infantil. Crime hediondo contra as filhas calungas. Estatuto da criança e do adolescente o ECA,  Aqui é apenas para tapar o sol com a peneira! Os crimes contra as indefesas crianças calungas é,  imoral, revoltante e crônico!

Cemitério Calunga!

O problema social convive pacificamente com o cemitério. É fácil identificá-lo: basta observar um lote repleto de cruzes e túmulos com galinhas ciscando, cachorro roendo ossos e crianças brincando de “pique esconde”. O cemitério é vizinho à casa da família Moreira, que mora há mais de 18 anos no local. Já a necrópole existe há pelo menos sete décadas, antes mesmo da fundação do povoado. Os mais antigos dizem que o local era exclusivo para enterro das crianças. Os adultos eram sepultados às margens do Rio Paranã, em uma área cedida por um fazendeiro. Mas quando ele decidiu proibir o enterro em sua terra, não restou alternativa aos calungas senão o cemitério “infantil”. É isso.

Direitos violados e água contaminada!

A família Moreira aceitou em falar com a reportagem do Site Rios Goianos, desde que os depoimentos não fossem identificados. Uma mulher disse: “Foi muito duro para todos nós (aceitar a decisão de fazer os novos enterros no cemitério infantil), não tivemos o direito de retirar os restos mortais de nossos falecidos do antigo cemitério. E, ao mesmo tempo, violamos uma tradição Calunga”, recorda. Segunda essa tradição, as criancinhas “são puras e anjinhos de Nosso Senhor” e por esse motivo deveriam ser enterradas separadamente. O cemitério é totalmente aberto – não tem muros, apenas uma fina cerca de arame farpado o delimita. E, por isso, o cenário é pontuado por galinhas, cães e crianças brincando. Os Moreiras também enterram os seus entes queridos no local. Já foram sepultados, avós, filhas, tios, tias e muitos outros parentes e amigos. Para o filho mais velho dos Moreiras, as autoridades deveriam cuidar melhor do cemitério, algo sagrado para eles. “O mais grave é que o cemitério está a 200 metros acima do poço onde captamos água para beber e usar no dia a dia. A água do poço com certeza está contaminada”, revela.

Sede da Prefeitura FT JF 27 11 10 036 - CópiaSede da Prefeitura, testemunha ocular e como sempre omissa! O M P E, deve se manisfestar e defender esse povo tradicional do vale do Paranã!

Por último, ele denuncia: “As cruzes e os túmulos estão em péssimas condições”. O rapaz clama por mais dignidade na hora da morte e reivindica providências que beneficiem um povo, discriminado há séculos e que vive isolado e excluído da sociedade. A família calunga parece estar resignada quanto a sua situação. Homens e mulheres apenas querem um novo cemitério. Apenas um cemitério.

Praça Central Monte Alegre de Goiás FT JF 27 11 10 035 - Cópia

Cidade de Monte Alegre de Goiás, sua população é 90% composta por descendentes calungas. O desemprego é altíssimo pois, o nível de escolaridade de um jovem calunga raramente supera o primário! Mais uma vez, a cor da pele determina o destino deles…

Povoado de Paranã FT JF 27 11 10 089 - CópiaRancho calunga, harmonia entre homem e meio ambiente. Uma sabedoria passada de pais para filhos, sustenta os bravos descendentes dos escravos! O amor pela natureza é seu guia supremo…

Edição: Carlos Alberto Pacheco

Revisão: Tatiane Faria

Texto e Fotos: João Faria/ONG Rios Goianos.

                                       

2 comentários sobre “Rio Paranã: e o cemitério Calunga!

  1. José Cardoso de Melo

    Belo trabalho de reportagem investigativa. Há muito não se vê na imprensa um trabalho de fôlego como esse! Parabéns a Carlos Pacheco e João Faria.

    1. João Faria Autor da Postagem

      A ONG Rios Goianos lhe agradece José Cardoso de Melo, pelo
      seu apoio, e o convida a navegar em nossas outras páginas de matérias. Com certeza você vai gostar.
      Um grande abraço!

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