Rios Goianos: jornalismo ambiental com DNA goiano

Rio dos Bois, ex vigoroso rio da bacia hídrica dos rios goianos!

 

  Meu Sábado de Carnaval às Margens do Rio dos Bois!

 

Rua principal do Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás 22 Foto João/ONG Rios Goianos Faria 25 02 2017  Curiosidade: Essas podem ser as primeiras imagens do Povoado de Gercinápolis, a ser publicada na internet. Está retrata a rua principal do povoado!

Casa sombria povoado de Gercinápolis Varjão Goiás 5 Foto João Faria/ONG Rios Goianos 25 02 2017

Casa muito humilde mas, habitada! Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás.

Casa sombria povoado de Gercinápolis Varjão Goiás 3 Foto João Faria /ONG Rios Goianos 25 02 2017

Casa abandonada povoado de Gercinápolis Varjão Goiás.

Você conhece ou já esteve em Gercinápolis? É muito provável que não. Esse é um povoado do município de Varjão, em Goiás. Porta de entrada para se chegar ao Rio dos Bois, um lugar único e extremamente agradável e simples. Sua constituição geográfica é bem descomplicada – há uma rua central que atravessa o povoado e pronto! Outra coisa que chama a atenção são as pessoas, sua simplicidade, aconchego, amabilidade e educação formam o cartão de visita do lugar.

  Gercinápolis é um povoado como outro qualquer no aspecto físico da palavra, mas o seu maior diferencial, além das pessoas é claro, é o aparentemente vigoroso Rio dos Bois, a 4 quilômetros de distância da localidade. De longe se sente e se ouve o rio e o barulho de suas correntezas o cheiro de peixe misturado com o da água é inconfundível. Neste momento, a ansiedade aumenta: como estará a aparência do manancial? Sua mata ciliar será que ainda vive? Vamos pegar peixes ou não? E por aí vai…

Quem observa o Rio dos Bois, tem uma boa impressão: sua mata ciliar, ainda que pequena, sobrevive. Seu aspecto visual é razoável, mesmo demonstrando sinais de abusos. Mas o aspecto geral parece bom! A princípio é até um alívio ver que na aparência tudo está normal. Pois bem, vamos descer as traias e começar nossa tão desejada pescaria.

Estrada que liga Varjão ao Povoado de Gercinápolis Goiás 23 Foto João Faria 25 02 2017

Estrada que liga Varjão ao Povoado de Gercinápolis!.

      Brutos e Respeitados!

  Para os mais antigos e os não tão antigos assim, com certeza, se lembram da fama e fartura de peixes que o Rio dos Bois já teve. Chegamos às margens e estamos prontos para começar a pescaria dos brutos e respeitados peixes do rio. Lancei a isca na água e segurei com força o cabo da vara – vai que sou surpreendido com um puxão daqueles… Os segundos voam e logo os minutos passam. Chega bem rápido a primeira meia hora de pescaria e nada de puxão ou puxadinha. Uma hora depois e o ex-vigoroso Rio dos Bois, que já foi um dos rios goianos mais piscoso da região sudoeste de Goiás. Começa a contar sua triste e dramática história! Neste curto espaço de tempo, tive a oportunidade de sentir o clamor do rio. Pode até parecer estória de pescador, mas não é! Antes fosse.

 

Rio dos Bois Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás. Lugar calmo e seguro, só faltou o peixe! 10 Foto João Faria 25 02 2017

Uma pescaria calma e segura, só faltou o peixe!

   Meus pensamentos e lembranças me levam aos áureos tempos de criança. Me lembro muito bem que, quando meu pai me levava para pescar no Rio dos Bois, a situação era muito diferente. Dava medo dos peixes brutos que eram fisgados e capturados na ponta de um enorme anzol. Eles tinham a fama de engolir crianças inteiras sem mastigar. Tudo isso com bem menos de meia hora de pesca!

  Vou citar o nome de alguns peixes que recordo: Pintado, Traíra, Dourado, Pacu, Filhote, Piau Açu, Caranha, Barbado, Surubim, Jaú, Piratininga e o temido Peixe Elétrico ou a dolorosa Arraiá, sem falar dos verdadeiros monstros que habitavam suas águas turvas e perigosas, os Sucuris e os Jacarés de papo amarelo. Todos estes ilustres personagens foram atores principais e reais da história e vida desse rio. Contudo, não podemos esquecer dos peixes pequenos que faziam a festa da garotada. São eles Lambari, Piau Flamengo, Traíra pequena, Bagre ou Chorão – nossa! Este último com certeza faz jus ao nome e vários peixinhos filhotes que eram fisgados por nós.

 

     Me Sentindo Mal!

Depois de mais ou menos uma hora começou a dar uns pequenos e tímidos puxões, nem parecia que eu estava sentado às margens do todo poderoso Rio dos Bois. O fato é que eu estava me sentindo muito mal com essa situação. Na pescaria estavam comigo meu filho e minha nora: éramos três pessoas completamente sem ação diante da situação dura que se apresentava! Na realidade, fui nesta pescaria porque meu filho me encheu a cabeça, me pedindo para ir. E você sabe como é pedido de filho! “Vamos que vamos” e, agora, estamos aqui diante de uma tragédia anunciada e real.

 

Rio dos Bois Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás Leito do rio, visão linda! 20 Foto João Faria 25 02 2017

Rio dos Bois Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás Leito do rio, visão linda!

Pois bem, nessas puxadinhas fisguei um pequeno Pacu. ‘Opa’, tá melhorando! Foi uma festa, parecia que eu tinha capturado o maior Pacu do mundo. O ânimo voltou com tudo.

 

     Um Chorãozinho e Pronto!

  Resolvi usar o peixe como isca. O fisguei no anzol e voltei a pescar (estamos falando de mais de hora e meia de pescaria). Vamos resumir essa prosa: não peguei mais peixe nenhum, meu filho ainda pescou um Chorãozinho e pronto: esse foi o saldo de nossas mais de cincos horas e meia de pescaria.

Você pode até duvidar de nossa habilidade como pescadores, tudo bem! Realmente não somos um Epitácio Marques e muito menos um Joel Datena. Mas em uma coisa com certeza vamos concordar: ficar cinco horas e meia tentando pescar às margens do Rio dos Bois e pegar apenas dois peixinhos é assustador!

Voltando ao clamor do rio, a realidade é muito cruel é desesperadora. O Rio dos Bois está praticamente morto, suas águas, turvas e leitosas de veneno (agrotóxicos). Substratos assoreiam o seu leito do rio; a mata ciliar que lhe falei é apenas uma fina cortina, mantida apenas para esconder a brutal degradação que margeia o rio.

 

Rio dos Bois Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás. Mata ciliar aparentemente bem composta mas, é só aparência. 17 Foto João Faria/ONG Rios Goianos 25 02 2017

Rio dos Bois Povoado de Gercinápolis Varjão Goiás. Mata ciliar aparentemente bem composta mas, é só aparência!

       Rio Sem Gente!

Vimos uma canoa passeando com quatros pessoas a bordo. Havia uma família que parecia ser de pescadores, pois estavam acampados em baixo de uma ponte. No grupo, três crianças pequenas, totalmente vulneráveis aos perigos das águas do rio – uma situação muito perigosa, ainda mais nessa época do ano, cujas precipitações são fortes. Para vir uma tromba d’água é muito fácil e fatal para todos. Independentemente de ser um defensor da vida ambiental, ver o Rio dos Bois, tão frágil e moribundo, é de cortar o coração. O rio se tornou praticamente um ser humano. Explico. Em sua aparência, tudo se apresenta de forma saudável. Porém, basta parar e olhar com um pouco mais de atenção e se vê a verdadeira face dele: triste, vazia, sem vida, alegria ou sentimento. Sem abundância, calor, respeito, dignidade, compaixão e esperança! Essa é a nossa verdadeira face!

 

Texto e fotos: João Faria/ ONG Rios Goianos.

Revisão e edição: Carlos Alberto Pacheco/ ONG Rios Goianos.

6 comentários sobre “Rio dos Bois, ex vigoroso rio da bacia hídrica dos rios goianos!

  1. Umberto Gonçalves Borges

    João, conheço bem esta região,fui criado numa chácara a 500 mts de distância de gercinápolis, passei minha infância nesta única rua de gercinápolis, para lembrar tinha armazém ,campo de bola, duas igrejas, escola, no meu tempo em 1970 tinha umas 50 casas todas habitadas, como você citou o rio dos bois era temido, meu tio fisgou um surubim de 80 quilos em pleno dia, não faltava o dourado em nossa dispensa, fico triste de ver essas casas abandonadas. Hoje moro em Mato Grosso e através de minha família fundamos uma vila aqui, e a história do desmatamento e falta de controle de pescadores em nossos rios ainda se repete, talvez alguns lendo sua matéria se concientize. abraços, me emocionei vendo meu querido gercinápolis.

    1. João Faria Autor da Postagem

      Boa tarde Umberto,

      ficamos felizes de conhecer uma história tão linda como a sua, você é um homem de sorte pois, ser criado em um lugar como Gercinápolis é um verdadeiro sonho. O objetivo do site http://www.riosgoianos.com.br de escrevermos histórias como essa é o dê, tocarmos as pessoas para a realidade dura do Rio dos Bois, ele está agonizando e se nada for feito agora, ele morrerá!

      Precisamos com urgência resgatar o rio que tanta fartura e alegrias com certeza lhe deu e, uma forma extremamente eficaz de salvarmos o Rio dos Bois é apresentarmos á todos histórias verídicas e espontâneas como a sua.
      Com certeza deve haver outras pessoas que como você vão se recordar e se emocionar.

      Gercinápolis e o Rio dos Bois precisam de suas famílias e filhos, para que juntos possam salvar esse espetacular rio da bacia hídrica dos RIOS GOIANOS.
      Grande abraço!

  2. Geogiton

    Fui criado na região, porém do outro lado rio, atualmente Município de Cezarina, conheço como poucos o rio dos bois, pois já tive o prazer de percorrer quase toda sua extensão, mas o pouco que falta quero fazer ainda em breve. tenho 39 anos meus pais tem uma pequena propriedade as margens do rio.

    Posso lhe falar com propriedade os motivos da agonia do rio, primeiro e mais significante são três industrias instaladas as suas margens um curtume e dois frigoríficos, situados nos municípios de Santa Maria e Palmeiras de Goiás, onde lançam uma enormidade de escoto 24 horas por dia, até dizem ser tratado, mais pela cor e odor não acredito, ao lado da ponte que liga palmeiras a campestre, além do esgoto despejado, exitem 5 bombas retirando uma quantidade enorme de água para abastecer uma dessas industria de carne. Chegamos ao absurdo de ver uma mortandade de milhares de peixes, isso os que visualizamos, pois acredito que chegou a bilhões, pois muitas especies não boiam facilmente e muitos ainda alevinos. De alguns anos pra cá o leito do rio está todo poluído com uma especie de alga verde que antes não havia, acredito ser por causa dos detritos lançados no leito do rio, olha que a região que você relata fica mais de 40 km de distância.

    Fora isso, existem cerca de uns trinta pivôs retirando água (entre Nazário e Gercinápolis) a maioria nos municípios de Nazário e Palmeiras, claro de propriedade dos grandes fazendeiros da região. tem cerca de umas 15 dragas, que até poderia ser bom se respeitasse as leis e se não jogassem tanta poluição nas águas e também não afugentasse os peixes e demais animais. Quanto as matas ciliares, você fez uma boa observação, reconheci a foto tirada de cima da ponte que liga Varjão a Cezarina, a foto da uma falsa impressão, para ter uma melhor visão, precisa percorrer mais de 200 km do rio, como fiz. outro grande problema encontrado são os loteamentos as margens, a grande quantidade de pescador e canoas motorizadas que, por ser um rio relativamente estreito, as ondas produzidas pelos motores destroem os habitat natural e refúgios dos peixes e poluem as águas. Outro grande problema, é a quantidade de lixo de dessem pelas águas, por ter varias cidade as margens ou de seus afluentes, uma enormidade de lixo acabam chegando ao leito, (toda vez que se joga uma garrafa ou outro lixo qualquer na rua ou pela janela do carro, a próxima chuva encarrega de leva-lo ao rio). Devido a poluição, temos o desaparecimento de especies que são bastante exigente quanto a qualidade da água, como o dourado, tabarana, cachorra e outras muito sensível como piauaçu e caranhas que já estão bem escassos.

    Quero discordar de você apenas quanto as arrais e peixes elétricos, pois nunca habitaram as águas do rio dos bois.
    Como enfrentar esses problemas: Com politicas ambientais certas, fiscalização eficiente, não são os ribeirinhos que acabam com os peixes, e sim as industrias poluidoras e pescadores profissionais que atacam sem piedade na época da piracema.

    Uma sugestão, um milheiro de alevinos custa em média R$ 200 reais, por baixo o governo gasta com fiscalização entorno de R$ 2.400,00 ano com 40 policiais ambientais nos dois batalhões, valor esse que daria para comprar mais de 12.000.000 (doze milhões de peixinhos), que seria uma fonte saudável de alimento, uma carne saborosa e fomentaria o turismo da pesca esportiva no estado. Não defendo o fim da fiscalização, mas uma fiscalização inteligente e eficiente a um custo muito menor.

    Contudo, o rio dos bois ainda é um lugar lindo e prazeroso, com uma doze de sorte se pode ter o prazer de fisgar um belo exemplar. Os peixes mais comuns são mandis, curimbas, piaus, piaparas, pequenos bagres, bico de pato, agora se quiser pegar um grande peixe ai precisa de conhecimento do rio e de uma boa tralha e muita sorte.

    1. João Faria Autor da Postagem

      Bom dia senhor Geogiton,
      fico feliz de ver seu conhecimento e carinho para com o rio dos Bois, sua narrativa pontua muito bem a importância desse rio para Goiás. Nesses mais de 16 anos de fundação de nossa ONG, já participamos de centenas de reuniões, eventos, criação de projetos, oficinas de educação ambiental, audiências públicas tanto na Assembleia quanto na câmara de vereadores, e diversas outras reuniões em órgãos da administração pública e, uma coisa ficou bem clara para nós, a falta de vontade e atitude política é a causa maior da degradação ambiental em Goiás! Todo mundo sabe muito bem o que deve ser feito, tanto tecnicamente quanto formalmente mas, até hoje não tiraram esses projetos e ações do papel só por um motivo, “a politica” esse câncer que destrói tudo de bom, belo e saudável que ainda temos em nosso país.

      OBS: Obrigado pelo alerta sobre a arraia e o peixe elétrico, vamos cobrar de nossa fonte um parecer sobre esse fato e se necessário faremos a correção!

  3. Pedro Mendes Neto

    Olá João, me emocionei com seu relato, fui criado em Varjão, onde residi até os 14 anos de idade, me mudando pra Goiânia em 1990, meu avô foi vereador na cidade e um dos primeiros moradores do município. Voltei a meus tempos de infância onde ia com ele ao Rio dos Bois pescar, e era muito comum voltarmos pra casa com surubins, piaus, piamparas, etc… me entristeço em ver a situação que chegou o Rio… Gercinápolis era parada obrigatória tanto na ida, quanto na volta das pescadas, aquela parada pra tomar um refrigerante e comer alguma coisa antes de seguir viagem… obrigado pela matéria, espero que haja conscientização e que nossos rios voltem a seus tempos áureos.

    1. João Faria Autor da Postagem

      Bom dia senhor Pedro Mendes,
      que bom você ter recordado de sua infância e de seu querido Avô, o rio dos Bois é sem dúvida uma estrela que brilhou e ainda tenta brilhar em terras goianas, temos consciência de que produzir é necessário e vital para todos nós! Nosso questionamento é apenas um, porque ainda se degrada tanto em nome da produção de alimentos afinal, temos uma tecnologia de altíssima qualidade e acessível para praticamente a maioria dos produtores rurais e empresários, basta querer usa la e pronto. Mas, o que se nota é que o lucro tem que ser o máximo possível nem que para isso se mate um rio que sempre nos presenteou com fartura de peixes e dias de extrema alegria em suas margens!

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